Uma análise a Joe Dever’s Lone Wolf

O Regresso às Aventuras Fantásticas

Acho que não houve jovem no final da década de 1980 até meados de 1990 que não se tivesse deleitado com as possibilidades narrativas de Fighting Fantasy (Aventuras Fantásticas em Portugal, publicadas pela Verbo). Nestes livros que bebiam directamente dos pen & paper RPGs, a narrativa não era-linear, e frequentemente o livro nos mandava folhear páginas à frente ou para trás consoante as escolhas que tivemos. “Encontrou um eremita numa estrada, o que faz? Se quer atacá-lo vá para o capítulo 301, se deseja conversar com ele passe para o capítulo 124”. E assim se desenrolavam uma série de livros-jogo, que nos colocavam a combater com dados e diagramas, com inventários feitos em papel, e com a sempre presente possibilidade de perdermos perante o nosso adversário. Leia-se um livro.

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O sucesso de Lone Wolf, série criada pelo escritor Joe Dever não se pode equiparar a Figting Fantasy de Livingstone e Steve Jackson*, mas a solidez do personagem e o seu valor nostálgico conduziram-no a uma boa receptividade quando este jogo foi lançado para iOS.

Ao contrário de algumas adaptações que saíram para Spectrum, este Joe Dever’s Lone Wolf é a melhor transposição que qualquer um de nós poderia querer entre o acto sublime (para muitos de nós) de experienciar a acção que um livro choose your own adventure traz, para a sua faceta interactiva em videojogo. É que o que nos surpreende logo é a estética, no seu desenho arte-finalizado a tinta sobre uma espécie de pergaminho, e cujas imagens animadas nos remetem para a brilhante interpretação do Mapa do Salteador das adaptações cinematográficas de Harry Potter. O voice-over traz para o mundo audível aquela voz profunda que nos narrava as histórias que líamos e que nos fazia sentir épicos, ainda que estivéssemos no quentinho do nosso quarto, em pleno Inverno lisboeta, com uma caneca de chá na mão e o pijama vestido.

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Assim como nos respectivos gamebooks, Lone Wolf vai-nos apresentado algumas escolhas a tomar perante alguns momentos da narrativa. Estas escolhas vêm normalmente em grupos de três e o seu sucesso, para além de ligado à história pré-escrita e que nós não temos conhecimento, dependem do tipo de personagem que criámos: se estamos mais direccionados para a impulsividade, reflexão ou detreza. E o resultado das nossas escolhas tanto pode significar o nosso progresso, como ficármos frente-a-frente com duas criaturas que querem usar a nossa pele como um xaile.

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O combate vai beber à nossa imaginação de ávidos leitores. Contrastando com a componente mais text-based da narrativa, as batalhas demonstram um cuidado e um detalhe que poderíamos ver na concepção de personagens de um RPG AAA. As animações são fluídas, e o combate apesar de viver numa mistura estranha, mas eficaz, de turno/acção/QTE, consegue ser simultaneamente desafiante e recompensador. E é claro, que a par do que nos acontecia nos velhinhos livros, em que a nossa táctica e alguma sorte podem fazer do combate a nossa batalha mais simples ou uma luta pela nossa vida.

O melhor: o visual, o voice-acting, a história e o combate

O pior: jogo de micro-nicho, mais narrativo que interactivo.

Joe Dever’s Lone Wolf é uma boa adaptação dos gamebooks que crescemos a ler (e a jogar) e apresenta-se com imenso cuidado: desde o seu visual de alto nível, à narração bem-conseguida, e às cenas de combate tridimensionais com qualidade típica de um AAA. Como qualquer jogo do género, a rejogabilidade é uma das grandes potencialidades, tanto pela incerteza da nossa capacidade de prosseguir a história, como pelas escolhas e caminhos narrativos que podemos escolher. Se os pen and paper RPGs são já um nicho, os gamebooks são um nicho dentre deles, e tornando-se altamente difíceis de “penetrar” em novos mercados. Ainda assim, a sua componente literária e narrativa fazem deste jogo uma belíssima aposta para o mercado das tablet, e que acaba por funcionar na perfeição no PC. Uma adaptação obrigatória para os leitores de Lone Wolf ou de Fighting Fantasy, e que poderá ser a porta de entrada aos gamebooks para quem não os conhece.

Joe Dever’s Lone Wolf está disponível para iOS, Android e PC. Analisada a versão de PC.

* Nota: o sucesso de Fighting Fantasy catapultou-o para adaptações a videojogo/gamebook para o mercado mobile.

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Sobre Ricardo Correia

Criado pelo Dr. Light, sonha todos os dias que lhe ofereçam um Mega Buster como prenda.

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